“Um dia ,todos os pássaros do mundo reuniram-se numa conferência: o reino estava em desordem e precisava dum rei. Um dos pássaros informou os restantes que o rei que procuravam já existia, vivia atrás das montanhas, chamava-se Simurg e havia que o chamar. O caminho para lá chegar era longo, repleto de dificuldades e muitos dos pássaros desistiram de empreender a viagem. Os restantes puseram asas ao caminho, longo e difícil,. Durante a viagem, muitos acabaram por sucumbir, vencidos pelas dificuldades e pelos obstáculos, mas houve trinta pássaros que chegaram ao fim. Entraram numa sala cheia de espelhos (outros dizem que era um lago) e perceberam que rei que procuravam eram eles próprios.”

O Mussá contou esta história bem melhor do que eu escrevi acima. Acrescentou-lhe várias nuances dramáticas, alterou-a para que expressasse a sua visão do mundo, usou palavras, algumas que eu não entendi, outros sons que nascem da voz, o corpo, o olhar. O Ismael, a Benvinda, o Marcelino, o Panucci, o Emílio, a Virgínia, o Júnior, a Helka, o José e todos os outros fizeram o mesmo de outras formas, cada um à sua maneira. E nós todos fomos pássaros. Duma outra conferência, já que.éramos mais do que trinta. Ou talvez a mesma, se seguirmos o rumo poético traçado por Farid ud-Din Attar há mais de 800 anos. Todos com “cantos” muito diferentes mas com vontade de escutar o canto dos outros..

A “conferência” começou num lugar improvável, uma discoteca, e esta foi uma viagem cheia de peripécias e histórias paralelas, como a original. Levou-nos por muitos “vales” e fez-nos “dialogar” com um outro espaço igualmente improvável, um armazém que se transformou em ninho, palácio, fábrica, laboratório, templo, oficina, sala de espetáculos, casa e ficou com “marcas” da passagem dos pássaros. A “metamorfose poética do espaço e das pessoas” deixou-me cansado mas riquíssimo. Mais “encontrado” comigo e com todos os que me deram o prazer de voar com eles.

Profundamente Grato,

P.

O projeto “Ur-GENTE, Centro de Artes Cénicas Transdisciplinar de Bissau” é apoiado pelo PROCULTURA, financiado pela União Europeia, gerido e cofinanciado pelo Camões, IP. É coordenado pela ONGD VIDA, tendo como parceiros o GTO Bissau – Grupo de Teatro do Oprimido (Guiné-Bissau), a Academia Livre de Artes Integradas do Mindelo (Cabo Verde), e a Companhia de Música Teatral (Portugal).