A Cartografia Sonora Imaginária de Praga deixou-nos profundas ressonãncias. O DOX, Centre for Contemporary Arts é um espaço inspirador e o Festival of Arts Literature and Learning (FALL) é uma proposta corajosa, eclética e “polifónica” onde se cruzam linguagens e vozes de artistas plásticos, músicos, escritores, poetas, filósofos de vários países. A edição deste ano foi marcada pela abertura da exposição do Argus & Medusa: On Hope in Dark Times, que reune re-interpretações contemporâneas do icónico quadro A Jangada de Medusa de Théodore Géricault’s e cria um território de partilha e diálogo que se constrói através de várias iniciativas cuidadosamente programadas. A figura de Vaclav Havel inspira um sentido ético que se reflete nos mais pequenos pormenores e foi nesse contexto que a CSI de Praga procurou fazer reverberar o apelo para a esperança, compaixão e humanidade que emana do quadro, de toda a exposição e restante programação do festival FALL.

A CSI de Praga construiu-se a partir dos princípios iniciais mas convocou ideias, vozes e imagens adicionais. Alberto Manguel deu-nos o prazer de partilhar algumas das vozes imaginárias que o quadro de Géricault lhe “segredou” e essas palavras tomaram vida própria e habitaram as vozes e línguas de alguns amigos e amigos de amigos que convidámos a fazer parte da “viagem”. Uma nova “tapeçaria sonora” construída com fios delicados em português (de Portugal e do Brasil), espanhol, francês, dinamarquês, norueguês, esloveno, checo, ingês, esperanto, latim, flamengo, sérvio, italiano juntou-se a outros tecidos feitos de vozes de cigarras e rãs, icebergs, pássaros de brincar, toy piano, pianoscópios, saxofone soprano. melódica e muitas outras vozes de humanos que floriram em projectos como Com Palavras Amo, Ur_Gente ou O Céu Por Cima de Cá. A nossa “leitura” (digital) do quadro de Gericault cruzou-se com as imagens em movimento que já habitavam a CSI e com as que criamos em tempo real e o resultado foi “mesmerizing”, segundo nos disseram. Disseram-nos outras coisas muito bonitas mas ficou sobretudo a sensação de que fomos parte dum todo, dum estado de espírito, duma “afinação de pessoas, pássaros e flores”.